Amom aciona ministérios e Câmara para investigar invasão de grupos armados no Alto Rio Negro

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As denúncias de circulação de homens fortemente armados dentro da Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas, levaram o deputado federal Amom Mandel (Republicanos-AM) a apresentar um conjunto de 11 iniciativas formais na Câmara dos Deputados, envolvendo fiscalização, segurança pública, defesa nacional, diplomacia e proteção dos povos indígenas. São quatro Indicações ao Poder Executivo, quatro Requerimentos de Informação e três ofícios enviados às comissões permanentes da Câmara diretamente relacionadas ao caso.


A mobilização parlamentar ocorre após comunidades indígenas relatarem a presença de estrangeiros armados nas regiões do Alto Tiquié e do Baixo Uaupés , na faixa de fronteira com a Colômbia. As denúncias incluem ameaças, restrição à circulação, invasão de áreas de roçado e episódios em que famílias teriam ficado impedidas de acessar locais usados para a própria subsistência. Há ainda relato de que uma liderança indígena teria sido levada para servir de guia ao grupo durante deslocamentos pela floresta.

Ministério Público Federal instaurou inquérito civil para investigar o caso e a Defensoria Pública da União pediu providências urgentes ao governo federal.


Infraestrutura clandestina

Outro ponto considerado especialmente grave é a denúncia da existência de uma pista de pouso clandestina e uma estrada abertas no interior da Terra Indígena Alto Rio Negro, nas proximidades da comunidade Santo Baltazar da Cachoeira Andorinha. Para a DPU, caso essas estruturas sejam confirmadas, elas podem indicar uma logística instalada dentro do território indígena, ampliando a preocupação de que a área esteja sendo utilizada por organizações criminosas de forma mais permanente.

Os documentos produzidos pelo gabinete de Amom também registram relatos envolvendo as comunidades de São Felipe , Morro do Beija-Flor e Cachoeira Comprida.


Quem são os invasores?

A identidade dos homens armados ainda precisa ser oficialmente esclarecida. Moradores os associam a grupos provenientes da Colômbia e a possíveis dissidências das antigas FARC, mas o Exército Brasileiro informou que, apesar de estar monitorando as denúncias, não confirmou até o momento que os indivíduos sejam integrantes desses grupos.


Resposta em quatro frentes

O pacote elaborado pelo gabinete aciona simultaneamente diferentes áreas do governo federal para que apresentem uma resposta coordenada ao problema:

  • INC 1563/2026 (Justiça e Segurança Pública): pede medidas operacionais e ostensivas, reforço do patrulhamento fluvial, fiscalização e combate ao crime organizado na Terra Indígena Alto Rio Negro.
  • INC 1564/2026 (Povos Indígenas): solicita proteção etnoambiental, segurança alimentar emergencial, monitoramento territorial e assistência às lideranças ameaçadas.
  • INC 1565/2026 (Relações Exteriores): cobra gestões diplomáticas urgentes com a Colômbia, cooperação de inteligência e fortalecimento do controle da fronteira comum.
  • INC 1566/2026 (Defesa): propõe reforço operacional e de inteligência, intensificação do controle territorial, inutilização das estruturas clandestinas denunciadas e fortalecimento da vigilância militar.

Os RICs 2545, 2546, 2547 e 2548/2026 cobram respostas formais dos ministérios da Defesa , Justiça e Segurança Pública , Povos Indígenas e Relações Exteriores sobre o que cada órgão sabia, quais providências adotou e que operações, investigações, ações de proteção e mecanismos de cooperação internacional estão em andamento.


Caso chega a três comissões da Câmara

Além das proposições dirigidas diretamente ao Executivo, Amom levou as denúncias a três comissões permanentes da Câmara:

  • Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado (CSPCCO): pediu audiência extraordinária com Ministério da Justiça, Polícia Federal, Exército, DPU e representantes indígenas; requerimentos de informação; diligência parlamentar na região; e cobrança de reforço da Polícia Federal e eventual emprego da Força Nacional na faixa de fronteira.
  • Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais (CPOVOS): solicitou audiência com Ministério dos Povos Indígenas, Funai, MPF, DPU e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, além de uma missão parlamentar às comunidades atingidas.
  • Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN): pede uma audiência com Defesa, Itamaraty, Exército, Aeronáutica, Gabinete de Segurança Institucional e Ministério da Justiça, além de missão aos Pelotões Especiais de Fronteira e expansão do monitoramento aéreo e por radar.

Território indígena virou linha de frente da segurança nacional

A dimensão territorial ajuda a explicar a gravidade do problema. A Terra Indígena Alto Rio Negro possui cerca de 8 milhões de hectares e suas porções oeste e norte fazem fronteira com a Colômbia. Dados de planejamento territorial apontam centenas de comunidades espalhadas por uma vasta rede de rios e floresta, numa região em que distâncias, ausência de estradas e dificuldades de comunicação tornam qualquer resposta estatal mais complexa.

É justamente essa combinação de enorme extensão territorial, fronteira internacional, comunidades remotas e circulação predominantemente fluvial que torna as denúncias atuais particularmente sensíveis.

No ofício enviado à CREDN, o gabinete sustenta que a presença de grupos armados estrangeiros e a possível implantação de infraestrutura ilícita em território brasileiro exigem uma resposta integrada de Defesa, Diplomacia e Segurança Pública.


Próximos passos

A ofensiva parlamentar busca agora estabelecer uma cadeia objetiva de responsabilidades: o que o governo sabia, quando soube, que forças chegaram à região, quais estruturas clandestinas foram identificadas, que providências foram tomadas para proteger os indígenas e de que forma Brasil e Colômbia estão trabalhando para impedir que organizações armadas utilizem a floresta e os rios amazônicos como corredores transnacionais.

Até que essas perguntas sejam respondidas, as denúncias permanecem sob investigação. Mas o conjunto já documentado por comunidades indígenas, DPU, MPF e pelos expedientes encaminhados à Câmara revela um sinal de alerta que vai muito além das aldeias atingidas: proteger os povos indígenas do Alto Rio Negro significa também proteger uma das áreas mais estratégicas e mais difíceis de vigiar da fronteira brasileira.

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