A Prefeitura de Turilândia, no interior do Maranhão, amanheceu vazia no primeiro dia útil do ano. “Só tem eu mesmo”, disse um vigia. Na Câmara de Vereadores, o silêncio foi parecido.
A cidade sentia os efeitos de uma operação que abalou completamente a estrutura de poder do município. Na semana do Natal de 2025, o Ministério Público prendeu os chefes do Executivo e todo o Legislativo de Turilândia: o prefeito Paulo Curió, a primeira-dama Eva Curió, a ex-vice-prefeita Janaína Soares Lima e os onze vereadores da cidade. Ao todo, 21 pessoas foram presas.
Segundo o MP, o grupo desviou pelo menos R$ 56 milhões dos cofres públicos. O esquema teria começado em 2021, quando Paulo Curió foi eleito pela primeira vez.
As investigações apontam um sistema organizado de corrupção, com empresas de fachada, notas fiscais frias, propina e fraudes em licitações. O promotor Fernando Berniz, do Gaeco do Maranhão, afirmou que o problema era generalizado.
“Um dado interessante e relevante, dito pela própria pregoeira, é que 95% das licitações daquele município eram fraudadas”, disse.
Em mensagens interceptadas, a pregoeira cobra do prefeito uma “recompensa” pela fraude em uma licitação — entre os pedidos, uma caneta emagrecedora.
“Ei, chefe, boa tarde… Para o senhor me dar mesmo meu Monjauro e meu presente de Natal”, diz a mulher em áudio.
De acordo com o Ministério Público, empresários envolvidos no esquema recebiam até 18% do valor dos contratos por serviços que não eram prestados. Três por cento ficavam com o ex-controlador geral do município, Wandson Barros, apontado como operador financeiro. O restante voltava para o prefeito.
A investigação aponta que tudo começou em um posto de combustíveis. No papel, a prefeitura comprava milhões de reais em combustível. Na prática, o volume não correspondia ao consumo. O posto teve 58 contratos com o município e recebeu mais de R$ 17 milhões desde 2021.
Segundo o MP, o volume registrado permitiria que cada um dos dez carros da prefeitura rodasse 790 quilômetros por dia — o equivalente a uma viagem diária de ida e volta entre São Luís e Porto Alegre.
Enquanto o dinheiro público desaparecia, a realidade da cidade seguia marcada pela pobreza. Dados do IBGE mostram que três em cada quatro moradores vivem sem esgoto adequado.
Sem prefeito, vice-prefeita e vereadores, a Justiça adotou uma solução inusitada para evitar a paralisação da cidade: os vereadores passaram a despachar em prisão domiciliar. O Tribunal de Justiça do Maranhão decretou intervenção estadual no município, e um interventor foi nomeado para administrar Turilândia por 180 dias.
Em maio de 2026, a Justiça revogou a prisão preventiva do ex-prefeito Paulo Curió e de outros 14 denunciados, substituindo por medidas cautelares como tornozeleira eletrônica e recolhimento domiciliar. No entanto, os investigados seguem afastados dos cargos e proibidos de contratar com o poder público.
📍 Fonte: Fantástico/G1






