
A operação mais letal da história da polícia do Rio de Janeiro, ontem, contra a expansão do CV (Comando Vermelho) —a segunda maior facção criminosa do país—, reflete a utilização do mesmo remédio para uma doença que há anos não é curada.
2.500 policiais civis e militares entraram nos complexos da Penha e do Alemão, que têm como principal chefe o traficante Edgar Alves de Andrade. Vulgo Doca, ele é apontado como o “frente de guerra” do CV, responsável pelos planos de expansão da facção no Estado.
Os dois complexos são utilizados como grandes quartéis do CV. Dezenas de soldados fortemente armados são utilizados para que sejam locais seguros para criminosos.
Por isso, para além do tráfico de drogas, um serviço prestado pela facção ali é o de aluguel e proteção para traficantes de outros Estados. O CV cobra de cada protegido, mensalmente, entre R$ 300 mil e R$ 1 milhão.
Os setores de inteligência das polícias Civil e Militar alertavam há pouco tempo à reportagem: para uma operação ostensiva ali, se faz necessário o emprego de mais de mil policiais, com a ciência de que terá como resultado uma alta letalidade.
Operações com alta letalidade não significam necessariamente um ataque eficaz ao crime organizado. Essa avaliação foi feita à reportagem, também há pouco tempo, pelo secretário de Segurança Pública do Rio, Victor César dos Santos: “quando você foca no criminoso, ele ou é preso ou é morto. No dia seguinte tem o 02. E a vida continua.”
O próprio secretário explicou qual medida seria a mais funcional: seguir a linha do dinheiro e todo o sustento financeiro dos grandes faccionados e da facção como um todo. “É tirar deles as suas receitas”, disse.
Um exemplo desse tipo de atuação aconteceu recentemente. Mas em São Paulo, na Operação Carbono Oculto, contra a lavagem de dinheiro do PCC (Primeiro Comando da Capital) e de associados à máfia paulista.
Apesar da crescente que o PCC teve no país, mais exponencial, o CV nunca perdeu importância na estrutura do crime organizado brasileiro.
Nos últimos anos, grupos milicianos e o TCP (Terceiro Comando Puro), vinham ganhando espaço, mas, em um período mais recente, o CV voltou a conseguir dominar regiões anteriormente perdidas.
Para além disso, se sobrepôs em áreas que não tinham grupos armados presentes. É possível afirmar que o Comando Vermelho voltou a dominar o Rio.
Tanto que a facção conseguiu travar a cidade durante a ação mais letal da história, relembrando autoridades sobre o que aconteceu em maio de 2006 na capital paulista.
A Polícia Militar mapeou no início deste ano 1.625 áreas no Estado do Rio com a presença de grupos armados. 62% delas eram do CV; 21,5% do TCP; 12,5% de milícias; e 4% da facção ADA (Amigo dos Amigos) —esta quase extinta.
O responsável por isso, segundo investigação da DRE (Delegacia de Repressão a Entorpecentes): Doca, principal alvo da megaoperação de ontem. Com 273 anotações criminais e 32 mandados de prisão em aberto, está foragido há sete anos.
O projeto mais ambicioso de Doca é a expansão sobre territórios de milicianos na zona oeste do Rio. Desde 2023, financia e ordena ataques em Jacarepaguá, Rio das Pedras, Muzema, Gardênia Azul e Itanhangá. O objetivo é dominar áreas lucrativas e herdar as fontes de renda estabelecidas pelas milícias.
Expansão nacional
Essa expansão do CV não se restringe apenas ao Estado do Rio. A facção foi mapeada em 24 capitais brasileiras, chegou a seis Estados norte-americanos e tem a maior parte de seu armamento importado dos EUA.
Em apenas um ano, o CV mais que dobrou seu domínio na Amazônia Legal, com 130 cidades dominadas na região. Metade dos territórios dominados por grupos criminosos dali estão sob domínio da facção.
A chegada de criminosos ligados ao CV em presídios federais do Norte e Nordeste do país (Porto Velho e Mossoró, respectivamente) também impulsionou a presença nas regiões.
A reportagem apurou que, entre os atuais criminosos brasileiros que negociam com dissidentes das Farc na selva colombiana, a maioria é associada ao CV do Norte, Nordeste e Rio.
Essa expansão ligou o alerta de autoridades dos Estados afetados, que já estimam que o CV pode se tornar a maior facção do Brasil em territórios dominados. Para isso, o poder bélico necessariamente deve ser alto.

As armas de grosso calibre que estão com traficantes, milicianos e bicheiros não são feitas no Rio, assim como as drogas vendidas nas favelas não são produzidas no Estado.
“Verificamos que 90% das armas apreendidas aqui no Rio são de origem estrangeira. Dos 90%, 70% são de origem norte-americana”, afirmou ao UOL o secretário de Segurança do Rio, Victor Cesar dos Santos.
Essas armas desembarcam no Brasil em navios e aviões. Também entram no país por vias fluviais e terrestres. Autoridades dizem que seria impossível atravessar o país e chegar aos compradores sem corrupção.
Tabatinga e Letícia são cidades que pertencem à tríplice fronteira do país com Peru e Colômbia, na região amazônica, os dois principais produtores de cocaína no mundo.
Estima-se que 70% da cocaína produzida no Peru é trazida para o Brasil, enquanto os outros 30% para o Equador. Investigadores federais que atuam na região afirmam que o principal sotaque que se escuta ali é o do Rio.
O CV pretende controlar não só a cadeia de abastecimento a partir do Peru, mas também expandir para a Colômbia, segundo investigadores federais.
O ex-comandante das Farc Manuel Bolívar, que participou do processo da paz de 2016, afirmou que um dos métodos de financiamento da guerrilha era o acordo financeiro que mantinha com traficantes de drogas brasileiros.
Para que a droga passasse pelo terreno ocupado, as Farc cobravam uma taxa que variava entre 1% e 5% por remessa de cocaína. Segundo ele, os dissidentes, que continuam na região onde atuavam até 2016, mantêm a estrutura financeira de guerrilha.
No passado, seus principais “clientes” eram do PCC. Agora, os principais compradores dos dissidentes das Farc na região são do CV.
Para pesquisadores de segurança pública, megaoperações ostensivas com alta letalidade, na prática, enxugam gelo. Mas podem gerar votos da população que está cansada de conviver diariamente com a violência que assola o país.
Já operações investigativas, que sufocam financeiramente o crime organizado, não têm o mesmo poder eleitoral, mas tendem a diminuir o poderio de criminosos, refletindo em aumento de segurança à população.
Fonte: UOL



