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07/03/2026

Veja quais são os maiores contratos da Seduc entre os que devem ser investigados na inspeção extraordinária do TCE-AM

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Durante o Governo Wilson Lima (União Brasil), a Secretaria de Educação do Amazonas (Seduc-AM) operou uma máquina de contratos de alto valor que agora está no foco da inspeção extraordinária do Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM).

Levantamento com base nas cifras oficiais dos contratos disponibilizados no Portal da Transparência indica que os 20 maiores contratos firmados entre 2020 e 2025 somam centenas de milhões de reais e se concentram em um grupo reduzido de fornecedores nacionais — muitos de fora do Amazonas —, justamente enquanto o Estado despencava para o último lugar no Enem 2025.

A inspeção do TCE-AM foi aberta para apurar critérios de escolha, forma de contratação (muitas por inexigibilidade/adesão), aditivos e eficácia pedagógica. A investigação alcança os maiores contratos e as empresas a seguir — que, por valor e recorrência, compõem o núcleo duro da política de compras da Seduc no período e, portanto, estão na mira direta da inspeção extraordinária.

Os dados a seguir estão disponibilizados no Portal da Transparência do Governo do Amazonas e na base de dados da Receita Federal para consulta pública.

Os maiores contratos (2020–2025), com valores por exercício:

1. Multiverso das Letras Distribuidora Ltda – R$ 533.412.952,92 (2023); R$ 317.114.807,89 (2024).
Sede: SP. Atuação: distribuição de material didático em larga escala.
Sócio: Jeremias Paim

2. Poranduba Consultoria Educacional – R$ 178.107.148,40 (Eireli, 2022); R$ 138.735.473,88 (Ltda – Filial, 2025).
Sede: Sudeste. Atuação: consultoria/conteúdo pedagógico.
Sócio: Eliabe Correia Maciel.

3. GM Quality Comércio Ltda – R$ 122.066.900,67 (2021).
Sede: Pernambuco. Atuação: suprimentos pedagógicos em grande volume.
Sócio: Antônio Fernandes Mendes Júnior

4. Inca Tecnologia de Produtos e Serviços Eireli – R$ 67.311.820,00 (2022).
Sede: Paraná. Atuação: soluções/serviços tecnológicos para rede de ensino.
Sócio: Sérgio Bento de Araújo

5. Pontual Distribuidora Ltda – R$ 54.905.327,64 (2020).
Sede: Tocantins. Atuação: livros, materiais gráficos e artigos de papelaria.
Sócio: Adilson de Paula.

6. MVT Educação Ltda – R$ 49.812.854,14 (2024); R$ 30.547.308,00 (2023); R$ 21.863.348,00 (2022).
Sede: São Paulo. Atuação: conteúdos/plataformas educacionais.
Sócio: Marinildo Ruiz.

7. Innyx Educação e Tecnologia Ltda – R$ 47.760.000,00 (2025); R$ 23.880.000,00 (2024); R$ 16.213.685,40 (2020); R$ 28.712.619,00 (2021).
Sede: Manaus. Atuação: consultoria em tecnologia da informação.
Sócio: Empresa pertencente ao Grupo Bringel.

8. Sudu Inteligência Educacional Ltda – R$ 39.998.418,00 (2023); R$ 34.574.592,00 (2022); R$ 30.281.250,00 (2021).
Sede: Manaus. Atuação: plataformas digitais/assessoria de aprendizagem.
Sócio: João Moacir Pereira da Silva Filho

9. Travessia Editora e Livraria Ltda – R$ 41.907.797,00 (2021).
Sede: São Paulo. Atuação: conteúdos/editoriais educacionais.
Sócio: Ellen Moraes Abreu Manechini

10. Grafisa – Gráfica e Editora Ltda – R$ 19.852.329,18 (2020); R$ 12.774.841,30 (2022); R$ 11.411.326,13 (2024).
Sede: Manaus. Atuação: impressão/gráfica e paradidáticos.
Sócio: Amanda Aragao Montenegro Vieitas

11. Editora Planeta do Brasil Ltda – R$ 18.405.777,60 (2020) e R$ 18.405.777,60 (2021).
Sede: São Paulo. Atuação: editora nacional (grupo internacional).
Sócio: Andre Rodrigues Lopes

12. Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos (ICBEU) – R$ 18.000.000,00 (2023).
Atuação: cursos/projetos educacionais (entidade privada sem fins lucrativos).
Presidente: Luís Fabian Pereira Barbosa

13. V M Aluguéis de Imóveis Próprios Ltda – R$ 15.262.045,61 (2023).
Sede: Manaus. Atuação: comércio atacadista de material de escritório e papelaria.
Sócio: Valter Valente da Cruz

O que os números mostram

Concentração de valores destinados à Multiverso e Poranduba. Sozinhas, abocanham fatias gigantes do orçamento educacional em 2023, 2024 e 2025.

Há uma recorrência de fornecedores, como a Innyx, Sudu e MVT, que aparecem ano após ano, ora com plataformas e “soluções”, ora com kits e conteúdos — sinal de circuito fechado de compras.

Em meio aos contratos milionários, são firmados contratos periféricos de alto valor para, entre outros, locações e serviços indiretos (como V M Aluguéis), que entram entre os maiores dispêndios, roubando espaço de investimento pedagógico direto.

Ao longo do período, as editoras e gráficas (Grafisa, Planeta, Pontual) seguem relevantes, mas perdem terreno para distribuidoras/consultorias que intermedeiam produtos e “soluções” em larga escala.

Quem são os donos e onde estão

Em sua maioria, os sócios controladores e administradores não estão no Amazonas e têm base no Sudeste, reforçando a dependência de fornecedores externos. Casos de conhecimento público incluem Eliabe Correia Maciel (Poranduba) e Grupo Bringel (Innyx).

Em grandes editoras (p. ex., Editora Planeta) e distribuidoras de escala (Multiverso), a cadeia societária envolve grupos empresariais de fora do Estado. Para entidades como o ICBEU, a governança é associativa (diretoria/conselho) e não “proprietários” típicos de Ltda., mas, quem está à frente como presidente é o ex-secretário de Educação e atual vice-presidente do TCE-AM, conselheiro Luís Fabian Pereira Barbosa.

Responsabilidades por gestão

A trajetória desses contratos atravessa três gestões na Seduc sob o governo Wilson Lima. O ciclo se inicia e é estruturado quando Luís Fabian Barbosa comandava a secretaria, com adesões e contratações de grande porte que abririam caminho à expansão posterior; segue com Kuka Chaves, período em que a recorrência de fornecedores e os grandes tickets se consolidam; e explode na gestão de Arlete Mendonça, quando o Amazonas afunda no último lugar do Enem 2025 e a inspeção extraordinária do TCE-AM é instaurada.

O elo político-institucional é inescapável: Wilson Lima patrocinou a linha de gasto que priorizou terceirizações, kits e “soluções”; e Fabian, hoje conselheiro e vice-presidente do TCE-AM, ocupa posição de poder no mesmo órgão que investiga a arquitetura de compras montada no período em que ele próprio conduziu a Seduc.

Os maiores contratos desde 2020 concentram recursos, definem prioridades e revelam o método da política educacional do governo Wilson Lima: até aqui, os dados públicos indicam gasto recorde com material didático, consultorias e plataformas, mas resultado educacional nulo.

O pior Enem da história do AM e a pressão orçamentária expõem a falência de uma política que compra soluções, porém não entrega educação.

Os maiores contratos da Seduc no quinquênio expõem a engrenagem central que o TCE-AM decidiu vasculhar. São contratos altíssimos, repetidos e concentrados, celebrados no governo Wilson Lima, atravessando gestões da Seduc sem correção de rumo — e com impacto zero na sala de aula. Se a inspeção confirmar ilegalidades, sobrepreços ou ineficácia, o Amazonas estará diante de um escândalo educacional à altura dos números que o sustentaram.

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