‘Rio virou um abrigo para chefe do tráfico do Brasil inteiro’, diz autor de livro sobre crime organizado

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De acordo com jornalista e autor Rafael Soares, nos últimos anos o Comando Vermelho firmou alianças em outros Estados, 'fagocitando' facções locais.

A terça-feira (28/10) foi marcada pela operação policial mais letal desde 1990 na região metropolitana do Rio, de acordo com levantamento do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF). Ao menos 64 pessoas morreram.

Mas para o jornalista Rafael Soares, repórter especial do jornal O Globo que cobre há mais de uma década segurança pública e direitos humanos no Rio, muitas das peças que ajudam a explicar o contexto desta terça-feira traumática para a população não são novas nem surpreendentes.

Em entrevista à BBC News Brasil, Soares apontou algumas dessas peças.

Por exemplo, as mudanças envolvendo o Comando Vermelho, facção alvo da operação nos complexos do Alemão e da Penha, na capital fluminense.

De acordo com o jornalista, nos últimos anos o Comando Vermelho firmou alianças em outros Estados, “fagocitando” facções locais. Além disso, está tentando entrar no mercado internacional de drogas, até então monopolizado por outra organização criminosa, o Primeiro Comando da Capital (PCC), baseado em São Paulo.

Assim, na análise do jornalista, a entrada de mais dinheiro, seja nacional ou internacional, está promovendo a expansão do Comando Vermelho — ao que as forças policiais do Rio têm respondido com a chamada Operação Contenção, da qual a ação de terça-feira fez parte.

Outra peça já conhecida desse contexto é escalada da letalidade das operações policiais promovidas pelo governo estadual de Cláudio Castro (PL), segundo aponta Soares.

“Desde 2020, o Rio tem colecionado operações com um índice de letalidade surreal de alto. É muito raro, [quando] você pega a crônica policial brasileira, operações policiais com mais de 20 mortos. É uma coisa esdrúxula, que só existe no Rio de Janeiro”, diz o jornalista.

Castro, então vice-governador, assumiu interinamente o governo estadual em 2020, após o afastamento de Wilson Witzel. Em 2021, assumiu o cargo definitivamente.

Para o jornalista, outro fator que ajuda a explicar a operação de terça seria parte de um suposto esforço do governo Castro em encontrar alguma “marca” para seu governo, que terminará no ano que vem.

Em suas redes sociais, o governador chamou essa terça-feira de “dia histórico” e disse que, em reação à operação, “criminosos” tentaram colocar a cidade e o Estado do Rio de Janeiro de joelhos”.

“Mas as nossas polícias estão nas ruas garantindo a volta para casa, garantindo a volta da normalidade da vida”, assegurou Castro.

Fonte: BBC News