Uma força-tarefa policial deflagrada na manhã desta sexta-feira sacudiu os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário no Amazonas. A Operação batizada de Erga Omnes — expressão em latim que significa que a lei “vale para todos” — teve como alvo um grupo investigado por atuar como um núcleo político do Comando Vermelho (CV), a maior facção criminosa em atuação no estado e no país, segundo as autoridades policiais.
Com o apoio de mandados judiciais cumpridos em pelo menos sete estados, a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) já prendeu ao menos 14 pessoas, oito delas em Manaus, e tenta capturar outros alvos ainda foragidos nas investigações.
Ligação com facção criminosa e esquema financeiro sofisticado
A investigação começou após apreensões significativas de drogas — incluindo 500 tabletes de maconha tipo skunk — armas de uso restrito, embarcações e veículos que eram utilizados na logística do tráfico de entorpecentes. A partir desses indícios iniciais, a polícia conseguiu identificar uma rede que, de acordo com os investigadores, ia além do braço armado do crime e alcançava setores da administração pública.
Relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas que somam cerca de R$ 70 milhões desde 2018, valores incompatíveis com a renda declarada dos investigados — um sinal de possível lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. Os recursos teriam sido movimentados por meio de empresas de fachada e até, segundo a polícia, instituições religiosas usadas como cobertura.
Presença de servidores públicos e ex-assessores entre os alvos
Entre os nomes citados nos mandados de prisão e de busca e apreensão estão funcionários públicos que ocupavam cargos nos três poderes do estado:
- Um servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas, que teria consultado mandados de prisão e outros dados sigilosos e repassado informações privilegiadas.
- Pessoas ligadas ao Legislativo, incluindo ex-assessores parlamentares de vereadores.
- Policiais e integrantes das Forças de Segurança que, segundo a investigação, teriam atuado em conluio com a organização.
A apuração também identificou que agentes públicos e operadores jurídicos consultavam mandados de prisão e informações processuais, possivelmente antecipando decisões e dificultando ações policiais — um método típico de grupos criminosos com núcleos internos em instituições de Estado.
Prisões expressivas e rédea solta para perseguição dos foragidos
Entre os detidos está Ana Bela Cardoso de Freitas, que foi ex-chefe de gabinete do atual prefeito de Manaus — e hoje integra a Comissão de Licitação da Prefeitura —, conforme confirmou a Polícia Civil nas ações desta manhã. A investigação aponta que ela teria sido uma das peças no esquema que captava dinheiro junto a traficantes para a compra de drogas na Colômbia, seguido de operações de lavagem via empresas de logística.
Ainda durante a operação, a polícia confirmou que um dos líderes apontados — identificado como Allan Kleber — conseguiu fugir antes da chegada dos agentes, permanecendo foragido.

Lista completa e quem são os 14 presos na Operação Erga Omnes
Presos no Amazonas (Manaus e região)
- Izaldir Moreno Barros – Servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), investigado por suposta facilitação de informações sigilosas que beneficiariam o núcleo do CV.
- Adriana Almeida Lima – Ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM). Presa por suposta participação no esquema político-criminoso.
- Anabela Cardoso Freitas – Ex-chefe de gabinete do prefeito de Manaus, David Almeida, e integrante da Comissão Municipal de Licitação. Policial civil e advogada, ela teve prisão decretada por suposto papel na rede investigada pela polícia.
- Alcir Queiroga Teixeira Júnior – Empresário apontado como responsável por movimentações financeiras suspeitas no esquema e alvo de blocos de contas e quebra de sigilo fiscal.
- Josafá de Figueiredo Silva – Ex-assessor parlamentar – teria atuado facilitando contatos entre agentes da administração pública e o grupo criminoso.
- Osimar Vieira Nascimento – Policial militar — segundo a investigação, pode ter oferecido apoio logístico e/ou informações que favoreceriam o grupo.
- Bruno Renato Gatinho Araújo – Nomeado nas investigações como participante nas transações ou suporte de serviços ligados ao esquema.
- Ronilson Xisto Jordão – Preso no município de Itacoatiara (AM), também integrante da estrutura que está sob investigação.
Presos em outros estados do país
- Antônia Fabiane Silva Pinho – Detida em São Paulo (SP).
- Patrícia Chagas Bezerra – Presa no Pará (PA).
- Lucila Meireles Costa – Detida no Piauí (PI).
- Sander Galdêncio Cândido de Brito – Preso em Minas Gerais (MG).
- Cristiano Luan da Silva “Cacau” – Preso no Ceará (CE).
- José Edmilson de Vasconcelos Júnior – Também preso no Ceará (CE).

Prefeitura de Manaus nega envolvimento institucional
Em meio aos acontecimentos, a Prefeitura de Manaus divulgou nota afirmando que não integra nem apoia qualquer organização criminosa investigada pela operação, e que o prefeito David Almeida não é alvo nem investigado no inquérito. A administração municipal ressaltou que servidores eventualmente envolvidos responderão individualmente por seus atos perante a Justiça.
Implicações jurídicas e segurança pública
As pessoas presas ou sob investigação podem responder por crimes graves, entre eles:
- Organização criminosa
- Associação para o tráfico de drogas
- Corrupção ativa e passiva
- Violação de sigilo funcional
- Lavagem de dinheiro
- Ocultação de patrimônio
Especialistas em segurança pública afirmam que essa é uma das investigações mais complexas já deflagradas no Amazonas, justamente por envolver dados internos de Poderes do Estado e por supostamente permitir que o crime organizado tivesse acesso a informações estratégicas. A infiltração em estruturas estatais é considerada um passo perigoso na consolidação e expansão de facções como o Comando Vermelho, que já domina grande parte do território urbano e rural no estado, inclusive por rotas fluviais.
Repercussão e próximos passos
A Operação Erga Omnes segue em curso, com agentes realizando buscas, diligências e bloqueios de contas em diversos estados brasileiros, incluindo Ceará, Piauí, Pará, Maranhão, São Paulo e Minas Gerais. A Polícia Civil reforçou que continuará as ações até que todos os envolvidos sejam detidos ou responsabilizados, e prometeu maior transparência sobre os desdobramentos à medida em que a Justiça autorizar novas divulgações.
O caso levanta questões sensíveis sobre o papel de agentes públicos dentro de esquemas criminosos, a necessidade de reforço nas estruturas de investigação e controle interno das instituições e os riscos que a colaboração involuntária ou criminosa de servidores representa para a ordem pública e a segurança dos cidadãos.






