Manaus 356 anos: obras avançam no Centro, mas desigualdade ainda domina as ruas

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Pessoas em situação de rua na Praça Dom Pedro II, no Centro Histórico de Manaus, um dos pontos turísticos da capital — Foto: Larry Wilcox/Rede Amazônica

Fachadas pintadas, novas calçadas e praças revitalizadas dão novo visual a trechos do Centro Histórico de Manaus. Mas, entre o vai e vem de turistas e o comércio popular, ainda é comum ver pessoas dormindo sob marquises e famílias vivendo nas calçadas.

No dia em que Manaus completa 356 anos, nesta sexta-feira (24), o contraste entre o progresso urbano e a exclusão social segue visível no coração da capital amazonense.

Um levantamento do Serviço Especializado em Abordagem Social, vinculado à Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc), aponta que 819 pessoas vivem hoje em situação de rua em Manause mais da metade (56%) está concentrada na Zona Sul, onde se localiza o Centro. A maioria é composta por homens, entre 25 e 55 anos.

Segundo a Semasc, o trabalho é contínuo, com atendimentos nos serviços de Proteção Social Básica e Especial, como o Centro POP e o Serviço de Acolhimento Institucional.

As equipes da Semasc informaram ainda que atualmente já foram realizadas 857 abordagens sociais em diferentes pontos da cidade. Destas, 130 pessoas foram encaminhadas para abrigos e 72 aceitaram iniciar tratamento contra a dependência química. Segundo o órgão, 94% dos atendidos relataram uso de substâncias psicoativas.

Revitalização se concentra em áreas pontuais do Centro

As obras de revitalização do Centro Histórico têm se concentrado em praças e vias de grande circulação, com ações de infraestrutura, limpeza e ordenamento urbano. Entre os locais recuperados estão a Praça dos Remédios, que será entregue nesta sexta (24), durante as comemorações de aniversário da cidade.

Comerciante há mais de 20 anos nas proximidades da praça histórica, um vendedor de suco de laranja, que preferiu não se identificar, lembrou como o espaço estava degradado antes da reforma.

Praça dos Remédios revitalizada para ser entregue no aniversário de 356 anos de Manaus — Foto: Larry Wilcox/Rede Amazônica

Além disso, desde agosto de 2025, o Centro tem sido palco do quinto “Mutirão no Bairro”, ação que reuniu diversas secretarias para melhorar a mobilidade, os serviços públicos e o ordenamento social. De acordo com a prefeitura, a ação também busca encaminhar pessoas em situação de rua para clínicas ou abrigos.

Apesar da proposta, as ações já causaram confusão. Durante um dos dias do mutirão, no dia 7 de agosto, ambulantes protestaram contra a operação, alegando que estavam sendo impedidos de trabalhar nas ruas do Centro. Houve confusão e gritos de “deixa a gente trabalhar”.

Urbanista vê “revitalização sem inclusão”

Para o arquiteto e urbanista Maurício Carvalho, o processo de requalificação do Centro de Manaus repete o padrão de outras grandes cidades brasileiras: melhora o visual, mas não ataca as causas da desigualdade.

Segundo ele, os investimentos recentes têm efeito localizado e, muitas vezes, não fazem parte de um plano integrado de recuperação e manutenção.

Carvalho também chamou atenção para o risco da gentrificação, que ocorre quando a valorização dos imóveis acaba expulsando moradores e comerciantes de baixa renda.

Para ele, a revitalização deve equilibrar o interesse econômico e o social, com políticas contínuas e planejamento a longo prazo.

Falta abrigo e continuidade

A assistente social Ana Bezerra, da Cáritas Arquidiocesana de Manaus, afirma que o principal desafio para atender pessoas em situação de rua é a falta de abrigos na cidade.

Ela atua no Centro de Acolhida Dom Sérgio Eduardo Castriani, no Centro de Manaus, que oferece banho, café da manhã, atendimento social e encaminhamentos para serviços de saúde e tratamento contra dependência química.

A unidade funciona de segunda a sexta-feira. Aos fins de semana, o espaço é usado pela Pastoral do Povo de Rua, que distribui entre 100 e 130 refeições por domingo.

Praça Dom Pedro II, no Centro Histórico de Manaus, funciona como ‘moradia’ para pessoas em situação de rua — Foto: Larry Wilcox/Rede Amazônica

Sobre a nova Casa de Passagem, que vai funcionar como um albergue, com capacidade para 80 pessoas por noite, inaugurada pela Prefeitura neste aniversário da cidade, ela avalia: “Vai amenizar um pouco, mas o atendimento precisa ser contínuo. Não adianta fazer uma ação de um mês e depois parar”.

Ana também defende uma atuação mais integrada entre a assistência social e a segurança pública.

‘Cidade-cenário’ preocupa especialistas

O sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Marcelo Serafico, alertou para o risco de que as políticas de requalificação urbana priorizem a estética e o turismo, mas deixem de lado a dimensão social.

Para ele, quando o foco está apenas na aparência, a cidade corre o risco de se tornar uma vitrine que esconde os problemas reais.

Serafico defende políticas estruturais de habitação, emprego e transporte público de qualidade, que promovam inclusão e mobilidade social.

Fonte: G1/Am