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07/03/2026

Evangélicos, Lula e Bolsonaro: como a religião virou peça-chave da eleição de 2026

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Chegou recentemente às prateleiras das principais livrarias o livro Brasil no Espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros, da editora Globo Livros. Com pouco mais de 200 páginas, a obra do cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, é resultado de entrevistas realizadas com quase 10 mil brasileiros entre novembro e dezembro de 2023. O objetivo do trabalho é oferecer um retrato de como pensamos, quais valores morais orientam nossas escolhas e de que forma nos posicionamos ideologicamente.

A partir dos dados levantados, o livro permite inúmeras análises e leituras, tamanha é a riqueza do material apresentado. Um dos aspectos que mais chamam a atenção diz respeito à religião. Felipe Nunes lembra que, no primeiro censo realizado no Brasil, em 1872, 100% da população se declarou católica. Passados 150 anos, o cenário é radicalmente diferente. Hoje, 57% dos brasileiros se dizem católicos, 27% evangélicos, 9% afirmam não ter religião e 7% pertencem a outras crenças.

Brasil no Espelho - novo livro do cientista político Felipe Nunes
Brasil no Espelho – novo livro do cientista político Felipe Nunes Crédito: Divulgação

Esse processo de diversificação religiosa tem implicações diretas na política. À medida que o país se torna mais plural, a religião tende a ganhar peso crescente nas disputas eleitorais, sobretudo nas eleições presidenciais. Para os candidatos, formar maioria dentro de um eleitorado cada vez mais fragmentado será um desafio adicional. Nesse contexto, o crescimento dos evangélicos e o comportamento político desse segmento são o principal foco de atenção dos analistas. Trata-se de uma parcela numerosa do eleitorado que, como aponta Felipe Nunes, passou a escolher seus candidatos menos a partir de critérios econômicos e mais com base em valores morais e identitários.

A experiência internacional ajuda a compreender esse fenômeno. Nos Estados Unidos – país que exerce forte influência cultural e política sobre o Brasil – a religião sempre desempenhou papel relevante na vida pública. Na década de 1960, o democrata John Kennedy enfrentou forte resistência por ser católico, tornando-se o primeiro presidente americano dessa religião. Em setembro de 1960, precisou assegurar aos evangélicos do sul que sua fé não orientaria suas decisões políticas, ao mesmo tempo em que defendia o direito de um católico disputar cargos públicos.

Décadas depois, em 2007, o então senador Mitt Romney foi aconselhado a seguir estratégia semelhante. Mórmon, precisou afirmar aos evangélicos que sua fé não seria seu guia final caso quisesse obter apoio político. À época, pesquisas indicavam que 52% dos protestantes evangélicos brancos que frequentavam regularmente a igreja não consideravam o mormonismo – fundado por Joseph Smith em 1830, no estado de Nova York – uma vertente do cristianismo.

Se a religião sempre influenciou a política americana, nos últimos anos passou a exercer peso crescente também no Brasil. Embora nunca tenha estado ausente, há episódios emblemáticos. Em novembro de 1985, durante o último debate televisivo entre os candidatos à prefeitura de São Paulo, o então senador Fernando Henrique Cardoso hesitou ao responder a uma pergunta do jornalista Boris Casoy sobre sua crença em Deus. O episódio foi considerado decisivo para sua derrota diante de Jânio Quadros.

Qual será, afinal, o peso da religião na eleição presidencial de 2026? Será determinante? Essa é uma resposta que só virá em outubro do próximo ano. Mas é inegável que terá influência relevante. Não por acaso, os dois principais polos da disputa – Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o bolsonarismo, que hoje aponta Flávio Bolsonaro (PL) como possível candidato – têm voltado suas atenções para um eleitorado potencialmente decisivo: os evangélicos.

Apesar de notícias indicarem que Lula teria desistido de disputar esse segmento diante do aumento da rejeição, os fatos mostram outra realidade. Nesta semana, o presidente assinou um decreto que reconhece a cultura gospel como manifestação cultural. No ano passado, sancionou a lei que institui o Dia Nacional da Música Gospel, celebrado em 9 de junho. Além disso, indicou para o Supremo Tribunal Federal Jorge Messias, integrante da Igreja Batista.

Na campanha de 2022, Lula chegou a divulgar uma carta direcionada aos evangélicos e produziu peças publicitárias específicas para esse público. Mesmo enfrentando resistência em setores progressistas que demonstram aversão ou preconceito contra os evangélicos, o petista sabe que esse eleitorado pode ser decisivo.

Diferentemente da discriminação contra religiões de matriz africana – marcada pelo medo e pela ignorância -, a rejeição aos evangélicos em parte da esquerda parece nascer de uma percepção de superioridade intelectual e moral.

Do outro lado, o ex-presidente Jair Bolsonaro divulgou recentemente uma carta em que confirma a indicação do filho Flávio Bolsonaro como seu nome para a disputa presidencial. No texto, recorre a uma metáfora bíblica ao afirmar que entregou “o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho”, numa alusão ao episódio de Abraão e Isaque.

A disputa pelo voto religioso – especialmente o evangélico – será um dos aspectos mais interessantes da eleição presidencial de 2026. Ainda não se sabe de que forma ela se dará, mas uma coisa é certa: quem quiser vencer terá de dialogar com a fé. Afinal, como registra Felipe Nunes em Brasil no Espelho, para 97% dos brasileiros Deus é muito importante em suas vidas. Razão suficiente para levar o tema a sério – e para recomendar a leitura do livro.

Fonte: Correio

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