Um relatório internacional da rede investigativa Amazon Underworld apontou que Manaus e Tabatinga se tornaram pontos estratégicos nas rotas do tráfico de drogas na Amazônia, utilizadas por facções criminosas brasileiras para o escoamento de cocaína na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.
De acordo com o estudo “A Amazônia sob ataque – Mapeando o crime na maior floresta tropical do mundo”, Manaus funciona como uma rota fluvial essencial, por onde as drogas que entram pelo Rio Solimões seguem até o Rio Amazonas, alcançando os portos do Pará e, posteriormente, os mercados da Europa e da África.
O relatório destaca ainda a fragilidade do controle portuário como um dos fatores que facilitam a atuação do crime organizado na região.
Fronteiras amazônicas sob pressão
Segundo Vlais Monteiro, mestre em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos, há fatores estruturais que dificultam o controle das fronteiras na região.
“A vastidão territorial, os rios navegáveis e as pistas clandestinas criam múltiplas rotas — legais e ilegais — que favorecem o trânsito de cocaína, ouro e pessoas, dificultando a vigilância e o controle territorial pelo Estado”, explica.

Ela destaca ainda que a densa cobertura florestal e os trechos remotos permitem que grupos armados operem fora do alcance das forças de segurança, utilizando o ambiente natural como proteção e meio de deslocamento entre países.
Outro ponto citado pela especialista é a fragilidade da presença estatal nas áreas de fronteira.
“Os governos frequentemente não conseguem manter uma presença contínua em serviços públicos e segurança. A pobreza, a falta de alternativas econômicas e a atração por pagamentos das estruturas criminosas levam jovens a serem recrutados e comunidades a tolerarem ou colaborarem com grupos armados”, ressalta.
De acordo com Monteiro, as organizações criminosas exploram o tráfico de drogas, o garimpo, o contrabando e a logística portuária, criando economias paralelas que se sobrepõem financeiramente à capacidade de atuação do Estado.
“A presença simultânea e competitiva do CV e do PCC em diferentes regiões do Amazonas transforma a lógica da violência e da governança local, com efeitos diretos na segurança pública e na vida cotidiana das comunidades”, afirma.
O avanço do crime organizado na Amazônia
O especialista em segurança pública Hilton Ferreira ressalta que o Amazonas faz fronteira com um dos maiores produtores de drogas do mundo, além de conviver com crimes ambientais, tráfico de armas e contrabando — reflexos da falta de uma política nacional consistente e permanente.
“O crime organizado na Amazônia não é diferente do resto do Brasil: sofre com o abandono e a falta de orçamento próprio. Segurança pública se faz com investimento”, diz.

Ferreira cita o ex-superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Mauro Sposito (falecido em 2025), que afirmava que “segurança se faz com dinheiro”.
“O Estado tem recursos, mas não aplica. O resultado é a derrota diária para o crime organizado. Drogas entram por estradas, pelo ar e por rios, e mesmo com Exército, Marinha e Aeronáutica em atuação, falta vontade política para usar essa estrutura”, critica.
Ele também aponta o déficit de efetivo da Polícia Federal (PF) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no estado.
“O quadro atual é vergonhoso. Não há orçamento nem equipe suficiente. Estima-se que 26% do território nacional já esteja sob influência de facções criminosas — e no Amazonas já há áreas indígenas dominadas pelo tráfico”, alerta.
Omissão e falta de controle
Para o ex-secretário de Segurança do Amazonas, coronel Amadeu Soares, o estado sempre foi estratégico pela localização geográfica, mas sofre com a falta de controle efetivo das fronteiras por parte do governo federal.
“Mesmo com improvisos, não há eficiência por falta de planejamento, estrutura e orçamento. Nessa omissão, o crime se estabelece, usando os rios Solimões e Amazonas como vias de acesso aos grandes centros do Brasil e até à Europa, Ásia e África”, afirma.

Sobre o garimpo, Soares critica a ausência de regulamentação do setor, o que empurra garimpeiros para a ilegalidade.
“A facção viu a brecha e entrou no jogo. Falta regulamentação e fiscalização; é uma grande omissão das esferas de governo”, aponta.
Ele também reforça a necessidade de proteção às comunidades indígenas, frequentemente vulneráveis à ação de traficantes e grupos armados.
“Há uma omissão clara do Governo Federal e da Funai. Essas populações ficam vulneráveis e acabam sendo usadas no transporte de drogas pelos rios e florestas da região”, conclui.
Fonte: Portal Rios




