Em meio à ampla Operação Erga Omnes, deflagrada pela Polícia Civil do Amazonas para investigar um suposto núcleo político ligado ao Comando Vermelho (CV) infiltrado na administração pública, um dos empresários detidos trouxe à tona declarações que complicam ainda mais o cenário político e policial em Manaus.
O empresário Alcir Queiroga Teixeira Júnior, proprietário da Revoar Turismo, uma empresa investigada por suspeita de atuar como fachada para lavagem de dinheiro e movimentação financeira aparente de recursos ilícitos, foi preso preventivamente durante a operação e, em depoimento policial, afirmou que a ex-chefe de gabinete do prefeito de Manaus, Anabela Cardoso Freitas, realizava a compra de passagens aéreas, hospedagens e aluguel de veículos em dinheiro vivo — fora do sistema bancário tradicional.
Segundo o relato de Alcir, os bilhetes adquiridos por meio de sua empresa seriam destinados não apenas a Anabela, mas também ao prefeito de Manaus, David Abisai Almeida (Avante), ao vice-prefeito Renato Júnior, a servidores municipais e a familiares do chefe do Executivo municipal. Entre as viagens citadas está uma realizada ao Caribe, com destino às ilhas Saint Martin e Saint Barth, cujas passagens teriam sido pagas à vista, com dinheiro em espécie, totalizando aproximadamente R$ 34 mil.
Em depoimento, Alcir detalhou que os pagamentos em espécie eram feitos majoritariamente com notas de R$ 50 e R$ 100 — e, ocasionalmente, de R$ 20 — e que não tinha informações precisas sobre a origem dos valores. “Não sei dizer se o dinheiro usado para pagar as passagens de pessoas vinculadas à Prefeitura de Manaus tinha origem no tráfico de drogas ou no crime organizado”, disse o empresário, segundo trechos do depoimento obtidos pela imprensa.
Além de passagens relacionadas ao prefeito e seus familiares, o empresário afirmou que Anabela também solicitava bilhetes para pessoas ligadas à administração municipal, como Bernard da Costa Teixeira, empresário da empresa PUMP — alvo de investigação por irregularidades em eventos — e Igor da Silva Brilhante, dono da Construtora Brilhante, ambos mencionados no contexto do depoimento.
O depoimento de Alcir foi anexado a um pedido de habeas corpus preventivo apresentado pelo vice-prefeito e por familiares do prefeito, incluindo a primeira dama, embora o pedido tenha sido retirado antes de ser analisado pela Justiça, conforme documentos datados de quarta-feira (25).
A Revoar Turismo figura no inquérito policial como uma possível empresa fantasma, utilizada para dar aparência de legalidade a operações de transporte e logística que, conforme a investigação, poderiam estar relacionadas ao envio de drogas ou à movimentação de recursos de origem criminosa. As apurações apontam para uma rede que teria movimentado cerca de R$ 70 milhões ao longo de quatro anos, com atuação em diferentes estados.
Em nota, a Prefeitura de Manaus declarou que o prefeito David Almeida e o vice-prefeito Renato Júnior não são investigados na operação e que, por não terem acesso aos autos, não se manifestarão sobre declarações atribuídas a terceiros, reforçando a confiança no devido processo legal e nas instituições competentes.
Até o momento, outras pessoas foram presas e diversas seguem foragidas no âmbito da operação, que envolve mandados de prisão preventiva, busca e apreensão, além do bloqueio de bens e quebras de sigilo relacionados aos investigados.






