O Ibovespa, principal índice de ações da Bolsa brasileira, emendou uma sequência de recordes neste ano, mantendo tendência que já era positiva em 2025, quando o indicador teve o melhor desempenho desde 2016: dinheiro de estrangeiros, juros brasileiros elevados, mas que devem começar a cair, e a volta dos aplicadores locais em meio a expectativas otimistas para a economia brasileira.
O que aconteceu
Ibovespa emendou cinco recordes seguidos apenas neste ano. Mesmo após subir 34% em 2025, melhor desempenho desde 2016, o principal índice de ações da B3 acelerou a tendência de valorização agora em janeiro, já superando o patamar de 170 mil pontos, que era, para alguns analistas, um limite a ser batido apenas em dezembro.
“O resultado reforça a leitura de um mercado amplamente comprador, com forte amplitude de altas e renovação sucessiva de máximas históricas, fatores que, combinados, indicam um ambiente de maior apetite por risco na Bolsa brasileira no início de 2026.” – Einar Rivero, sócio fundador da Elos Ayta
Estrangeiros sustentam apostas na alta do Ibovespa. A queda dos juros nos Estados Unidos, onde o Federal Reserve (banco central americano) começou a cortar a taxa em 2025, enquanto a Selic permanece elevada no Brasil, aumentou a diferença de rendimentos entre aplicações nos dois mercados. Essa combinação levou mais aplicadores internacionais a migrarem parte dos investimentos de Wall Street para cá, incluindo a compra de ações de empresas brasileiras.
Investidor estrangeiros ampliou em 15% a negociação de ações na Bolsa brasileira em 2025. A movimentação, que inclui compras e vendas, atingiu R$ 2,8 trilhões entre janeiro e dezembro do ano passado, representando mais de 60% de todo giro da B3.
Fluxo estrangeiro para Bolsa ganhou força em janeiro. Esse movimento de capital externo para a B3 brasileira recebeu um novo impulso nas primeiras semanas de 2026 por causa das incertezas econômicas provocadas pela política externa hostil do presidente estadunidense, Donald Trump, mesmo contra aliados históricos, como a Europa.
“Bolsa e real estão sendo beneficiados pela entrada do capital estrangeiro, que tem saído dos Estados Unidos por causa do aumento das incertezas geradas pelo governo Donald Trump, e buscado outros mercados emergentes e com menor volatilidade neste cenário atual, sendo o Brasil um deles.” – Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora
Investidor local também retoma aplicações na Bolsa. Após um 2025 marcado por resgates dos fundos de ações e multimercados, quando aplicadores brasileiros preferiram a renda fixa em detrimento da renda variável por causa dos juros elevados, a expectativa em 2026 é de uma recomposição das estratégias na Bolsa. Esse movimento tende a elevar o fluxo de recursos de investidores pessoas físicas e institucionais (fundos de pensão e de previdência privada) para a Bolsa.
Fundos de ações e multimercados tiveram resgates líquidos de R$ 113,4 bilhões em 2025. Já os fundos de renda fixa tiveram saldo positivo (novas aplicações menos saques) de R$ 88,4 bilhões. Profissionais de mercado dizem que parte dessa migração já começou a ser revertida por causa da expectativa de que os juros vão começar a cair no Brasil.
“Os fundos de investimento estão pouco alocados porque muita gente resgatou o dinheiro da indústria de fundos de ações e multimercados aqui do Brasil nos últimos anos, então parte desse dinheiro está começando a voltar.” – Fernando Siqueira, chefe de pesquisa da Eleven Financial
Preços das ações ainda têm desconto. É o que mostram algumas medidas usadas pelo mercado para calcular os valores negociados na Bolsa. Um desses indicadores é o que compara o preço de um ativo (do Ibovespa, no caso) com o lucro gerado por esse mesmo ativo em um ano, o chamado P/L (preço/lucro).
“O Ibovespa segue negociando a uma relação preço/lucro inferior à média histórica.” – Bernardo Viero, analista da Suno Research
Expectativa de queda de juros no Brasil favorece empresas. A maior parte do mercado projeta que o Banco Central vai começar a cortar a taxa básica de juros Selic (atualmente em 15% ao ano) ainda neste trimestre. Nesse cenário, o crédito para o consumidor ficará menos caro, e o custo financeiro das empresas para expandir operações também diminuirá. Essa expectativa atrai investidores que projetam um ambiente mais favorável para o crescimento de vendas e de lucros das companhias que têm ações negociadas em Bolsa.
“A truculência de Trump tornou os títulos do Tesouro americano menos atrativos. O investidor estrangeiro que busca diversificar aplicações encontra no Brasil um mercado ainda barato. Se esse movimento é acompanhado de uma queda de juros no Brasil já a partir de março, com uma atividade econômica crescente e uma agenda eleitoral que fortaleça a discussão sobre maior equilíbrio fiscal, a gente tem um conjunto de elementos para mais um ano positivo na Bolsa local.” – Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos
Trajetória de alta do Ibovespa tende a ser mais volátil agora por causa de ondas de realização de lucro. Mesmo que o atual ciclo seja predominantemente de valorização, a Bolsa deve ter pregões de quedas pontuais, puxadas por investidores que decidem vender ações que subiram mais para apurar uma parte dos ganhos, dizem analistas.
Ainda assim, as estimativas de mercado seguem otimistas. Confira algumas projeções e o que elas representam em termos de variação ante os 177 mil pontos que o Ibovespa chegou a bater nesta quinta-feira (22).
- Empiricus: 190 mil pontos (+7%)
- Suno Research: 190 mil pontos (7%)
- Eleven Financial: 190 mil pontos (7%)
- XP (cenário mais otimista): 224 mil pontos (+26,5%)
Fonte: UOL






