A abertura da indústria do petróleo da Venezuela ao capital estrangeiro pode abaixar os preços do barril e apertar as margens de lucro das empresas, segundo analistas. Por outro lado, podem surgir oportunidades de negócios no país vizinho que gerem novas receitas para a Petrobras.
O que aconteceu
Ação dos Estados Unidos na Venezuela cria novo fator na indústria petrolífera mundial. Após seu país invadir a Venezuela, prender o presidente Nicolás Maduro e provocar mudança no governo venezuelano, o presidente americano, Donald Trump, expressou a intenção de abrir o setor petrolífero ao capital estrangeiro.
Venezuela tem potencial para elevar oferta de petróleo no mundo. O país, embora dono da maior reserva de petróleo do mundo, tem produção decadente e marginal na oferta global, abaixo de um milhão de barris diários, menos de 1% do fornecimento total. Nos melhores momentos, a produção local chegou a mais de 3 milhões de barris diários.
Se a Venezuela retomar um patamar mais elevado de produção, ainda mais se for em um ambiente de demanda restritiva, isso pode pressionar os preços e, consequentemente, virar um fator negativo para as petroleiras de maneira geral.
Fabiano Vaz, analista da Nord Investimentos
No curto prazo, lucro da Petrobras tende a ser influenciado pelos preços do barril. Mesmo que o aumento da produção de petróleo na Venezuela seja atualmente apenas um plano na cabeça de Trump, que precisa primeiro superar questões legais e atrair bilhões de dólares para atualizar o sucateado parque industrial do país sul-americano, esse fator já entrou no radar de analistas de mercado que acompanham as ações da Petrobras.
No caso da Petrobras, o efeito é marginalmente negativo, pois o aumento esperado da produção da Venezuela deve elevar a sobreoferta do petróleo e pressionar os preços do produto. Embora ainda seja difícil mensurar o tamanho e o prazo desse impacto, é mais uma fonte de pressão para os preços do petróleo e para a receita da companhia.
Ruy Hungria, analista da Empiricus
Potencial aumento da oferta da Venezuela no médio prazo agrava quadro de oferta excedente. De acordo com a AIE (Agência Internacional de Energia), o fornecimento total de petróleo em 2026 deverá atingir cerca de 109 milhões de barris por dia, o que representa um excesso de oferta de 3,84 milhões de barris por dia.
A gente já precificava um preço de petróleo mais baixo, tanto por conta da Venezuela como pela expectativa de fim da guerra entre Rússia e Ucrânia, que também aumentaria a oferta de petróleo no mundo.
João Daronco, analista da Suno Research
Preços do petróleo emendaram três anos de baixa. Os contratos futuros do petróleo Brent caíram 19% em 2025, a US$ 60,85, no terceiro ano seguido de queda, e na maior retração desde 2020. Já o contrato do WTI ficou 20% mais barato, fechando dezembro a US$ 57,42.
O cenário ainda é de incerteza, mas o potencial aumento da oferta a médio prazo pode pressionar os preços do petróleo. No curto prazo, há risco de alguma interrupção no fornecimento. No entanto, caso sejam suspensas as sanções e implementada uma estrutura regulatória que incentive investimentos, a produção na Venezuela poderá aumentar ao longo deste ano e no médio prazo.
Regis Cardoso, chefe da área de óleo, gás e petroquímicos da XP
Cenários para segundo momento
Abertura de setor petrolífero na Venezuela pode gerar novos negócios para Petrobras. No longo prazo, caso confirmada a reabertura da exploração do petróleo venezuelano para o capital privado internacional, a petroleira brasileira seria uma candidata com potencial para assumir algumas operações.
Petrobras conhece campos de exploração na Venezuela, onde já atuou. Embora não tenha negócios atualmente na Venezuela, a estatal brasileira era uma das companhias que operavam em áreas venezuelanas de extração e produção da commodity até duas décadas atrás, quando deixou o país. Procurada, a empresa disse que “não tem operações na Venezuela e permanece acompanhando o mercado”.
Imaginamos que oportunidades podem ser ofertadas para empresas estrangeiras e, quem sabe, nomes brasileiros passem a ser possíveis compradores dos ativos ofertados.
Genial Investimentos, em relatório
Competitividade da Petrobras pode resistir aos preços internacionais mais apertados. No último Plano de Negócios, a estatal projeta que sua média para o Custo Total do Petróleo Produzido (CTPP) será de US$ 30,4 por barril de óleo equivalente, portanto com margens ainda elevadas diante da atual cotação do barril, na casa de US$ 60.
Na Venezuela, estudos mais recentes apontam que o custo de extração estaria na casa de US$ 23 por barril. Trata-se, portanto, de um patamar que sinaliza haver espaço para que a petroleira brasileira dispute mercado com suas margens operacionais. A Petrobras fechou o terceiro trimestre do ano passado com margens operacionais ao redor de 29%, ante 20% de média na indústria.
Apesar de um cenário mais de desafiador à frente, a Petrobras possui um grande diferencial, que é o mais baixo custo de extração de petróleo de toda a indústria brasileira. Diante disso, o cenário será mais desafiador pela expectativa de preços mais baixos, mas o impacto deverá ser limitado já que ela possui esse diferencial.
Marcelo Bolzan, planejador financeiro e sócio da The Hill Capital
Maioria de analistas traça cenário positivo para ações da Petrobras. De 14 análises compiladas pela plataforma Investing.com, a petroleira brasileira tem dez recomendações de compra, quatro de manutenção e nenhuma para venda do papel. O preço-alvo projetado pelos analistas para o fim deste ano varia numa faixa de R$ 32 a R$ 45.
Mantemos nossa recomendação de compra para Petrobras em uma carteira diversificada, dado o múltiplo descontado, bons níveis de dividendos e uma possível reprecificação por conta do cenário eleitoral.
Ruy Hungria, analista da Empiricus.
Maior concorrência estrangeira na exploração do petróleo na região. Um fator que poderia pesar negativamente sobre a Petrobras, entretanto, seria uma disputa mais acirrada por recursos caso a exploração de petróleo na Venezuela seja de fato aberta ao capital privado internacional, segundo Adriano Pires, diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura). “Os investimentos que poderiam vir para cá [Brasil], ainda a ser provada a viabilidade, agora contam com a Venezuela”, disse.
Fonte: UOL






