O preço da cesta básica em Manaus fechou o ano com seu sexto mês consecutivo de redução, e a quarta maior queda no Brasil. O valor caiu 1,43% entre novembro e dezembro, passando de R$ 629,39 para R$ 620,42. O recuo veio bem mais acentuado do que o do levantamento anterior (-0,61%), colocando a cidade na seleta lista de nove capitais com preços em redução. Conforme a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, levantada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), nos últimos oito meses, a alimentação básica acumulou retração de 7,64% na capital amazonense.
O levantamento revela que metade dos 12 produtos que compõem a cesta básica de Manaus ficaram mais baratos na passagem de novembro para dezembro. A lista de baixas capturadas pelo Dieese inclui tomate (-9,07%), banana (-5,50%), manteiga (-4,48%), leite integral (-2,05%), óleo de soja (-1,59%) e pão francês (-0,74%). Em contrapartida, feijão carioca (+4,12%), café em pó (+3,97%), carne bovina de primeira (+3,06%), arroz agulhinha (+1,04%), farinha de mandioca (+0,42%) e açúcar cristal (+0,27%) ficaram mais distantes dos bolsos dos consumidores manauaras, na mesma comparação.
A análise do acumulado confirma redução no custo da alimentação básica na cidade em um período mais prolongado. De abril a dezembro, foram registradas oito quedas de preços acumuladas na cidade, incluindo tomate (-33,21%), arroz agulhinha (-22,61%), farinha de mandioca (-15,96%), açúcar cristal (-9,34%), banana (-8,69%), manteiga (-7,81%), leite integral (-3,32%) e pão francês (-2,40%). Na outra ponta, os quatro itens que sofreram majoração de preços no mesmo período foram óleo de soja (+7,67%), feijão carioca (+6,73%), carne bovina de primeira (+6,64%) e café em pó (+4,44%). Vale lembrar que a pesquisa do Dieese só voltou a ser realizada na cidade a partir de maio do ano passado.
Das 27 capitais brasileiras, só nove registraram diminuições de preços, entre novembro e dezembro. As quedas mais expressivas ocorreram em Porto Velho/RO (-3,60%), Boa Vista/RR (-2,55%), Rio Branco/AC (-1,54%), logo à frente de Manaus. Em contraste, as altas foram puxadas por Maceió/AL (+3,19%), Belo Horizonte/MG (+1,58%) e Salvador/BA (+1,55%). Com o novo corte no preço médio da alimentação básica, a capital amazonense desceu tem o segundo mais baixo valor na região Norte, perdendo apenas para Porto Velho/RO (R$ 592,01). A cidade tem o oitavo mais baixo preço médio no ranking brasileiro, tendo Aracaju/SE (R$ 539,49) e São Paulo/ (R$ 845,95) novamente nos extremos.
Safras, inflação e ‘tarifaço’
A presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, destacou à reportagem que a diminuição no valor médio da cesta básica é positiva e possibilita ao manauara adquirir mais produtos e melhorar a alimentação da sua família, já que o dispêndio. “O custo tem impacto expressivo sobre o orçamento das famílias, em especial para as mais vulneráveis. E a queda também favorece a economia regional uma vez que promoverá aumento das vendas. Tal cenário foi possível a partir da combinação de variáveis: clima, câmbio, oferta dos produtos e impactos da isenção fiscal. Considerando-se a atual conjuntura, acreditamos em um cenário de estabilidade, até o fim do primeiro trimestre de 2026”, avaliou.
Para o economista, e ex-supervisor técnico regional do Dieese, Inaldo Seixas, os números não surpreendem. “Tivemos quedas principalmente em itens que a população de mais baixa renda necessita, como feijão e arroz. O comportamento dos preços refletiu as políticas públicas implantadas pelo governo federal, principalmente na área de agricultura familiar, que possibilitaram maior produtividade no campo. Tanto que o IPCA dos alimentos teve um aumento de menos de 2%. Já os valores de outros itens, como café e carne, vêm caindo mais lentamente, em razão da maior dificuldade para recompor perdas de impactos ambientais, por exemplo”, analisou.
A consultora empresarial, professora universitária e conselheira do Cofecon, Denise Kassama, vai na mesma direção. “Esse valor de R$ 620 representava cerca de 41% do salário mínimo, até o ano passado, o que não deixa de ser um alento. O ano passado foi muito bom para a agropecuária brasileira, que bateu muitos recordes de produção. Aliado a isso, o ‘tarifaço’ norte-americano aumentou a oferta de itens de exportação no mercado interno, pressionando os preços para baixo. No caso do Amazonas, a gente tem sempre a questão dos estoques reguladores, que se mantiveram em patamar elevado”, ressaltou.
Salário mínimo
Em dezembro, o trabalhador de Manaus que sobrevive ganhando salário mínimo (até então em R$ 1.518) precisou trabalhar 89 horas e 55 minutos para adquirir a cesta básica. O tempo necessário para bancar o gasto foi menor do que o do mês anterior (91 horas e 13 minutos) e está aquém da média do país (98 horas e 41 minutos). Considerando o salário mínimo líquido, após o desconto de 7,5% da Previdência Social, o mesmo trabalhador precisou comprometer 44,18% de sua renda mensal para bancar a alimentação da família.
O Dieese estima que, com base na cesta básica mais cara do Brasil, e uma família de dois adultos e duas crianças, o valor do mínimo necessário deveria ser de R$ 7.106,83, ou 4,38 mais que a cifra já corrigida para 2026 (R$ 1.621). O cálculo se baseia na “determinação constitucional” que estabelece que a remuneração deve suprir as despesas com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência.
“O Dieese sempre faz esse cálculo, mostrando que ainda falta muito para chegar a esse patamar ideal. O salário mínimo foi criado em 1936, ainda no primeiro período do governo Getúlio Vargas. E veio para responder também à necessidade de outros consumos, que também tiveram seus preços majorados ao longo do tempo. Isso faz com que o valor ideal do mínimo apontado fique lá em cima. Se a política do mínimo fosse focada só na alimentação, essa diferença seria menor”, explicou Inaldo Seixas, lembrando que o salário mínimo é usado na base de cálculo de aposentados e pensionistas do INSS.
Michele Lins Aracaty e Silva, concorda que o peso do custo da cesta básica sobre o mínimo é crescente. “A disparidade entre o mínimo e essa remuneração ideal provoca reflexão em busca de justiça social e econômica para quem vive na base da pirâmide econômica”, pontuou. A economista ressalva, contudo, que aumentar o piso brasileiro na calibragem defendida pelo Dieese dificultaria a empregabilidade e elevaria o valor necessário para benefícios sociais atrelados ao mínimo – pressionando a inflação.
Denise Kassama resume sua opinião dizendo que “o justo ainda não é possível”. “Não estamos falando só da cesta básica, mas de um salário mínimo para fazer um monte de coisa. Mas, o valor acaba sendo irreal para a realidade brasileira. Conheço muita gente com nível superior que não ganha esse valor de R$ 7.000, na atual conjuntura. Além disso, um reajuste nessa proporção elevaria custos operacionais e trabalhistas das empresas. Precisamos de mais crescimento econômico e produtividade para que essa renda possa aumentar de forma geral”, concluiu.
Fonte: Jornal do Commercio






